Entrevista com Silvia Paes, Curinga do Teatro do Oprimido de Boal

 

Silvia Paes é Atriz e Mestre em Artes formada pela Universidade de Brasília - UnB. Licenciada em Educação Artística com Habilitação em Artes Cênicas, pós-graduada em Direção Teatral pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes - FADM, no qual lecionou e assumiu a Direção Acadêmica (2016 a 2018). É Curinga de Teatro do Oprimido e professora-tutora da Licenciatura em Teatro da UAB/UnB. Integra o corpo docente da Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal. Trabalhou como consultora do Ministério da Educação e da Secretaria de Segurança Pública do DF em Teatro do Oprimido e como analista de projetos culturais da Lei Rouanet no Ministério da Cultura.

A seguir a entrevista com Silvia Paes


Larissa Silvestre: Como está sendo a experiência de dar aula na UnB? É muito diferente em relação às
aulas que você ministrava no Dulcina?

Silvia Paes: Está sendo um desafio belo e muito promissor. Digo isso porque sou filha da casa e, claro, estou realizando um sonho de voltar ao departamento como professora. Ministro aulas há 24 anos: do ensino fundamental I e II, ensino médio ao universitário e, este último, 14 anos dedicados a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. A resposta das aulas tem sido bem positiva; acredito que é a aliança de minha prática com o comprometimento dos estudantes, resultando em aulas dinâmicas, repleta de descobertas e reflexões contundentes. Há diferenças entre as aulas da UnB e Dulcina, a começar pela grade curricular. O mesmo quantitativo de aulas práticas e teóricas oferecidos pelo CEN – Departamento de Artes Cênicas, ao meu ver, prepara o estudante para teorizar a prática e praticar a teoria e, esse tipo de condução, é importante para formação acadêmica.

Larissa Silvestre: Você pensa em iniciar algum grupo com esses alunos da UnB para disseminar da melhor forma possível o Teatro do Oprimido por Brasília e até mesmo pelo Brasil?

Silvia Paes: Pretendo, até por conta da minha pesquisa de Doutorado. Ainda não esquematizei como isso se dará, mas tenho a intenção sim.

Larissa Silvestre: Você, como mulher negra que ocupa um espaço como professora universitária, pode me dizer como é ensinar estudantes a resistir e também ocupar espaços?

Silvia Paes: A nossa historicidade colonizadora no qual colocou a pessoa negra num patamar inferior durante séculos, criou uma premissa de que não podemos errar quando estamos numa função de igualdade com pessoas de pele branca. E, veja que isso é uma classificação errônea, uma vez que somos, todos, americanídeos. Ainda assim, na prática cotidiana, a sociedade brasileira tende a ignorar a etnia indígena e teima em classificar os brasileiros entre brancos e negros, o que é inaceitável diante da sociedade mista que temos. Contudo, por uma exigência minha, sempre busquei o foco, a entrega, a pesquisa e em ser uma das melhores no que proponho a fazer e isso, automaticamente, tem gerado um reconhecimento pela pessoa que sou e pelos trabalhos que desenvolvo. E é essa exigência em, si mesmo, que proponho aos meus estudantes: de serem os melhores no que propuserem a fazer.

Larissa Silvestre: Ainda hoje existe muita repressão nas escolas em relação a expressão de jovens periféricos. Como o Teatro do Oprimido pode auxiliar nessa luta?

Silvia Paes: O arsenal do Teatro do Oprimido propõe uma tomada de decisão para todos aqueles que têm acesso a metodologia desenvolvida por Augusto Boal. Essa tomada de decisão começa com exercícios que propõem a construção de um(a) cidadão(ã) mais crítico(a) e consciente de quem é e de como dialogar com a sociedade do qual faz parte. Costumo dizer que esse é o primeiro degrau para que os jovens saibam se expressar e reivindicar seus direitos e deveres.

Larissa Silvestre: Boal foi abertamente influenciado por Marx e Hegel, politicamente problematizando a dinâmica opressor-oprimido na luta de classes. Qual a sua visão sobre a influência do TO no cenário político atual? Em que ele influência e no que ele pode a vir influenciar?

Silvia Paes: Historicamente Boal aliou as técnicas de Teatro do Oprimido com as classes operárias, com os grupos que reivindicam, de um modo geral, a melhores condições de vida. Ou seja, aliou a linguagem teatral com as lutas socioeconômicas. Ele, por si só, era um homem revolucionário e levou essa inciativa para o T.O. Ele costumava dizer que isso é fazer política: é refletir, criar e agir. Esse contexto permite um diálogo constante com a atualidade. Influenciou e continuará influenciando grupos, coletivos que anseiam por mudanças, que querem ser protagonistas de suas vidas.

Larissa Silvestre: Durante nossos encontros você contou diversas histórias do seu trabalho como uma das multiplicadoras do TO. Uma delas foi seu trabalho em presídios. Como se desenvolveu essas atividades e em que você acha que esta ação repercutiu na vida dos presos que participaram dos exercícios?

Silvia Paes: Foi um desafio. Fui convidada a coordenar um projeto chamado TEAR – Troca de Experiências Artísticas e Reinserção – desenvolvido por um grupo de ex-alunos da Faculdade Dulcina. Foram eles que ficaram a maior parte, cerca de seis meses, com os adolescentes em conflito com a lei; esse projeto foi desenvolvido na UIP – Unidade de Internação de Planaltina com o apoio do FAC – Fundo de Arte e Cultura. Fui a quatro encontros e desenvolvi alguns jogos de Teatro do Oprimido, além de propostas referente a Estética do Oprimido. De um modo geral, tive respostas inquietantes dos que participaram. A relação deles com opressor e oprimido não é a mesma que a minha e com a maioria de nós; o herói deles é bandido, é o traficante que comanda uma determinada boca de fumo. O que propor nesse tipo de situação? Tentei conscientizá-los sobre seus desejos, seus quereres, seus anseios, seus objetivos de vida. Tentei fazer com que olhassem para sua família antes de pensar em matar e/ou estuprar um membro de uma outra. Tive algumas respostas/reflexões interessantes quando propus essa outra perspectiva dos crimes que eles tanto vangloriavam. Não tenho certeza de que eles mudaram, mas alguns disseram que não iriam mais cometer crimes.

Larissa Silvestre: Em toda a sua trajetória com o TO, qual foi o momento mais marcante para você?

Silvia Paes: Tive dois momentos. O primeiro deles, sem dúvida, foram os seminários imersivos que tive com o Boal. O segundo foi minha pesquisa de mestrado, no qual sistematizei a metodologia do T.O. através de uma oficina realizada com 13 adolescentes do Ensino Médio de uma escola pública do Distrito Federal, no período de três meses. Trabalhei o protagonismo juvenil aliado ao Teatro-Fórum que resultou no espetáculo Transições de Impacto. Definitivamente, essa experiência mudou as nossas vidas. Por isso que o T.O. não é utopia e sim, uma proposta de mudança de vida e paradigmas.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O sistema coringa